Espondilodiscites Infecciosas

Espondilodiscites Infecciosas: Quando a Cirurgia de Coluna é Necessária

Tempo estimado para leitura 6 minutos

Por Rene Kusabara
  •   Publicado em: 11 de setembro de 2026

Compartilhe: Imaginar que uma infecção pode destruir as vértebras e os discos da coluna é algo que poucos pacientes cogitam. Afinal, a coluna parece uma estrutura sólida, quase inabalável. Mas a espondilodiscite infecciosa existe, avança com velocidade e, em determinados casos, exige intervenção cirúrgica para evitar consequências graves. Continue a leitura deste artigo para entender […]


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Imaginar que uma infecção pode destruir as vértebras e os discos da coluna é algo que poucos pacientes cogitam. Afinal, a coluna parece uma estrutura sólida, quase inabalável. Mas a espondilodiscite infecciosa existe, avança com velocidade e, em determinados casos, exige intervenção cirúrgica para evitar consequências graves.

Continue a leitura deste artigo para entender quais sinais devem ser levados a sério e em que momento a cirurgia se torna uma necessidade clínica.

Espondilodiscite Infecciosa: porque Exige Diagnóstico Urgente

A espondilodiscite infecciosa é a infecção simultânea do disco intervertebral e das vértebras adjacentes. Ela pode ser causada por bactérias ou fungos. Em regiões endêmicas, pode ser causada pela bactéria da tuberculose, gerando o que chamamos de Mal de Pott.

O ponto em comum entre todas essas formas é a capacidade de destruir progressivamente as estruturas da coluna, comprometendo sua estabilidade mecânica e, em casos mais graves, comprimindo a medula espinhal e as raízes nervosas.

O que torna essa condição particularmente traiçoeira é a sua apresentação clínica inespecífica nos estágios iniciais:

  • A dor nas costas é o sintoma mais comum, mas é também o sintoma mais comum de dezenas de outras condições;
  • A febre pode estar presente ou não;
  • O mal-estar é difuso.

Por isso, o diagnóstico costuma ser tardio, muitas vezes semanas ou meses após o início da infecção. E cada semana perdida representa mais destruição óssea e discal acumulada.

Como a Espondilodiscite se Instala e Progride

A infecção raramente começa na própria coluna. Na maioria dos casos, um foco infeccioso em outro local do corpo, como uma infecção urinária mal tratada, uma endocardite bacteriana, um abscesso dentário ou mesmo uma infecção de pele, pode liberar bactérias na circulação que encontram no disco intervertebral um ambiente propício para se instalar.

Existem também casos em que a infecção é introduzida diretamente na coluna – após procedimentos cirúrgicos, injeções ou biópsias. Nesses casos, temos a discite pós-procedimento, que embora tenha mecanismo diferente, segue uma lógica clínica similar. Os fatores que aumentam o risco de espondilodiscite infecciosa incluem:

  • Diabetes mellitus, pela imunossupressão relativa e maior predisposição a infecções;
  • Uso de drogas intravenosas, pela introdução direta de agentes contaminantes na corrente sanguínea;
  • Imunossupressão, por doença ou uso de medicamentos imunossupressores;
  • Idade avançada, associada à redução natural da resposta imune;
  • Procedimentos invasivos recentes, como cateterismos, cirurgias ou infiltrações;
  • Presença de próteses ou implantes, que podem servir de superfície para biofilmes bacterianos.

A Destruição Progressiva das Estruturas

As bactérias produzem enzimas que destroem o colágeno do disco, fazem o osso das vértebras adjacentes necrosar e podem formar abscessos, que se expandem para o canal vertebral ou para os tecidos paravertebrais.

Quando o abscesso atinge o canal espinhal, a medula começa a ser comprimida. É nesse ponto que os sintomas neurológicos aparecem. E que a urgência cirúrgica se impõe com clareza.

Diagnóstico: Exames que Confirmam a Suspeita

O diagnóstico da espondilodiscite infecciosa é confirmado pela combinação de dados clínicos, laboratoriais e de imagem:

  • No laboratório, marcadores inflamatórios como a proteína C reativa e a velocidade de hemossedimentação estão classicamente elevados;
  • As hemoculturas, para identificar o agente causador no sangue, devem ser realizadas antes do início dos antibióticos sempre que possível;
  • A ressonância magnética consegue identificar as alterações no disco e nas vértebras adjacentes, evidenciar a presença de abscessos e avaliar o grau de compressão sobre as estruturas neurais.

Em casos selecionados, a biópsia percutânea guiada por imagem pode ser necessária para identificar o agente causador quando as hemoculturas não são conclusivas.

Quando a Cirurgia se Torna Necessária

A base do tratamento da espondilodiscite infecciosa é o uso prolongado de antibióticos, iniciado por via venosa e depois mantido por via oral. O repouso relativo e a imobilização com órtese também fazem parte da abordagem conservadora.

Em muitos casos, especialmente quando o diagnóstico é feito precocemente e não há comprometimento neurológico nem instabilidade estrutural, o tratamento clínico é suficiente para controlar a infecção e permitir a cicatrização óssea.

Mas há situações em que esperar pela resposta ao antibiótico representa um risco que não pode ser assumido. É nesses cenários que a cirurgia entra em cena, não como último recurso, mas como decisão estratégica e protetora.

As Indicações Cirúrgicas Precisas

A decisão de operar um paciente com espondilodiscite infecciosa segue critérios clínicos bem estabelecidos. As principais indicações incluem:

  • Déficit neurológico progressivo, como fraqueza nos membros, alteração do controle esfincteriano ou perda de sensibilidade;
  • Abscesso epidural com compressão medular, que não pode ser resolvido apenas com antibióticos e exige drenagem cirúrgica;
  • Falha do tratamento clínico, quando após período adequado de antibioticoterapia os marcadores inflamatórios não caem e a dor não melhora;
  • Instabilidade vertebral, causada pela destruição óssea extensa que compromete a capacidade da coluna de se sustentar;
  • Deformidade progressiva, especialmente na coluna torácica, onde a cifose por colapso vertebral pode comprimir a medula por mecanismo mecânico;
  • Necessidade de identificação do agente causador, quando a biópsia percutânea não foi diagnóstica e a definição do micro-organismo é essencial para o tratamento.

A cirurgia na espondilodiscite infecciosa tem dois objetivos principais: desbridar o tecido infectado – removendo o foco da infecção – e estabilizar a coluna quando há destruição estrutural significativa. Em muitos casos, isso envolve a colocação de implantes, o que pode gerar dúvidas no paciente.

Tratamento Preciso para uma Condição que Não Espera

A espondilodiscite infecciosa é uma das condições mais sérias que podem afetar a coluna vertebral. Mas também é uma condição tratável, com bons resultados quando o diagnóstico é feito no momento certo e o tratamento é conduzido com precisão.

O papel da cirurgia, quando indicada, é proteger o sistema nervoso, eliminar o foco infeccioso e devolver estabilidade a uma coluna que foi comprometida por dentro.

Se você apresenta dor nas costas persistente associada a febre, perda de peso inexplicada ou qualquer sinal neurológico nos membros, não adie a avaliação médica. Isso pode fazer a diferença entre um tratamento eficaz e uma complicação que poderia ter sido evitada.

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